Era para ser apenas uma noite comum. O sol se punha como de costume, os pássaros piavam como de costume, mas o relógio não chegou a meia noite, findara-se o dia inesperadamente pouco antes das onze horas. O casal humano se reunia na mesa com a papelada para iniciar o processo de divórcio. A casa de chão de madeira e paredes escuras ficaria com ele, que preferia trabalhar em um ambiente fechado, sem interferência da luz. Ela saiu com a antiga máquina de escrever e 80% da biblioteca. Em meia hora chegavam ao último item da divisão, o único item que precisou de demorados acordos, o mais difícil de resolver: a criança que eles geraram.
- Como vai ser durante a semana?
- A gente reveza onde vai dormir, mas você leva e busca na escola, eu levo e busco nos cursinhos.
- Tudo bem. E os feriados?
- Quero ficar com o natal.
- Se você pegar o natal, eu fico com a páscoa?
- Não, quero a páscoa também. Pode ficar com as férias maiores.
Anotaram no papel, assinaram.
- Olha, de uma coisa eu faço questão: quero ficar com o brilho dos olhos.
- Como é? De onde você tirou isso de querer ficar com o brilho dos olhos?
- Quero ficar com eles, ué. É do que gosto na criança.
- Mas aí você pega o brilho dos olhos e comigo fica como?
- Ué, fica opaco. Mas você pode escolher outras coisas, eu sou flexível.
- Não! Eu preciso do brilho dos olhos também, vamos ter que dividir.
- Vamos deixar o brilho para o final então. Tem alguma coisa que você queira?
- Gosto das coisas que a criança fala.
- Eu gosto da voz, do jeito de falar.
- Então você fica com a voz e eu fico com a palavra.
Resolvido outro ponto, cada um repetiu sua assinatura e estava feita a
divisão, dali em diante, dia seria voz sem signo, dia seria palavra sem
som.
- Eu gosto da risada, o som da gargalhada é muito gostoso de ouvir, posso ficar?
- Pode, prefiro o sorriso, os dentes tão branquinhos…
- Mas como a criança vai rir sem sorrir?
- Você não falou que gostava do som? Som é som, de boca fechada também se faz som.
- Tem razão. E a habilidade com esportes?
- Eu que ensinei a jogar bola, então fico com isso.
- Mas o preparo físico é meu.
- Tudo bem, desde que eu fique com o inglês, você se importa?
- Fica com o inglês. Vou ficar com a brincadeira com os bonecos.
- A brincadeira com os bonecos pode ser sua, mas a história vai ser minha.
- É justo.
Novos riscos no papel.
- Acho os pezinhos tão fofinhos, quero ficar com eles.
- Eu quero ficar com o caminhar, é de uma leveza…
- Certo.
- Eu acho que eu deveria ficar com a música.
- Com a música inteira? Mas eu fiz tanto pela música…
- O que você quer da música?
- Eu quero a letra, com a letra e o sentimento por trás das palavras eu fico feliz.
- Tá, eu quero a interpretação da música e com o jeito que os dedos se movimentam.
- Tem mais alguma coisa?
- Ah, sabe na hora de falar, as mãos ficam mexendo de um jeito leve e estabanado também, diz tanta coisa. Eu quero.
- A gesticulação é sua, mas não esquece que a palavra é minha.
De fato, a palavra só podia ser dita para ela, fora assinado cedo e trato é trato.
- Vou ficar com semblante também, espero que você não fique chateada.
- Tudo bem, o semblante é seu.
Foi a assinatura final, último desmembramento.
- Que bom que correu tudo bem, uma dor de cabeça a menos.
- Obrigada por ser tão atencioso. Não esquecemos de nada?
- Se surgir mais alguma coisa, a gente conversa.
- Espera, e o brilho dos olhos?
Eles procuraram, mas dividiu-se o indivisível. O item a) estava perdido. Foi assim que a criança, que era pura arte, cresceu pela metade, nunca alcançou a maturidade, que só se tem na plenitude.
No fim, olhamos juntos pela janela, tem muita história lá fora
Prazeres †
Eu ouvi a porta bater mais forte que o comum. Os móveis tremeram, relembrando o incidente de 1755, a sombrinha caiu no chão. Ele entrou cambaleando, com os olhos bem arregalados e, em sua face, a expressão do terror. Nunca o vira assim antes. Em especial pela marca de sangue na camisa. E nas mãos. E um pouco na testa, depois que ele segurou sua cabeça enquanto olhava para o espelho e agarrou os cabelos - um pouco antes de chorar. Não passou mais que dois minutos, e ele se pôs a lavar as mãos compulsivamente. Esfregava os dedos nos braços, deixando as marcas de suas unhas na pele já limpa. Ele continuou vidrado nessa limpeza. Por minutos e minutos que viraram horas, ele lavou seu corpo como quem tenta purificar a alma por meio do sabão. No mesmo ritmo acelerado, saiu de casa. Voltou quando já era tarde e jogou vários papéis e uma estátua manchada no chão. Naquela noite, ele somente leu. Leu e bebeu seu primeiro copo de vinho.
Nos primeiros dias ele ficou absolutamente trancado em casa. Todas as janelas fechadas, a porta cerrada. A única luz que via era a das velas, que, em certo momento, acabaram. À medida que os dias se passavam, ele ficava cada vez mais imerso naquelas folhas, até que começou a não precisar mais delas e foi, então, recuperando seu humor, abrindo as janelas. Das coisas que lia, decorara cada linha, cada palavra de cada frase. Incorporara aqueles escritos e passou a andar pela casa recitando poemas. Nesses dias ele parecia tão interessado pela antiguidade clássica que eu até estranhei. Vai ver era amor, pensei. Ele fazia tudo conforme os hábitos, mas decorava esses poemas, e eu achava que era amor mesmo, porque ele já frequentava as ruas novamente e lembro muito de um poema que falava sobre estar com alguém à beira-rio, aos abraços e beijos como se pouco além disso importasse. Ele repetia esse tantas vezes…
Alguns meses depois aconteceu de novo. O sangue, mais folhas espalhadas pelo chão da sala, a porta batendo, a sombrinha caindo. Ele parou, levantou a sombrinha e foi para o banheiro. A camisa rubra ele jogou ao chão, pôs a água para encher a banheira, foi até a pia e, nervoso, lavou as mãos e rosto. Despiu-se, entrou na banheira, deixou-se afundar. De fora, a água turva fazia de seu corpo submerso um borrão, mas a água ia sossegando, e já era possível ver seus olhos abertos com nitidez. Em intervalos de três segundos, uma por uma, bolhas saíam de seu nariz e corriam para a superfície. Três. Seis. Nove. Ele subiu seu corpo e permaneceu com os olhos fixos no teto, quando, depois de um tempo, começou a pensar alto. Eram palavras soltas, que viraram frases pouco compreensíveis, gradualmente ganhando sentido junto com um sentimento de indignação que se elaborava nele.
Dessa vez ficou trancado por duas semanas. A luz irritava-o, o barulho enlouquecia-o. Após o décimo quarto dia, somente checava a correspondência e escrevia cartas. No décimo nono dia, saiu pela noite e só voltou ao passar de seis dias. Voltava com uma maleta repleta de folhas grafadas em três diferentes letras.
Ele era discreto. Nunca fora mesmo de ter amigos em casa - talvez por não tê-los realmente - e não era o tipo de pessoa que deixava a vida pessoal sair pela porta de casa com ele, por isso tudo foi mais fácil de contornar. Quando ia para os eventos, era o mesmo homem, um homem correto, criativo e habilidoso. A diferença maior estava em quando se sentava à escrivaninha. Não era mais visível a angústia de quem busca o sintagma perfeito, de quem espera por horas até a frase certa nascer, até a inspiração chegar. Ele se sentava e escrevia todos aqueles versos prontos. Seus pensares, confusos, cada vez demonstravam uma opinião distinta. Uma hora estava todo sentimental a falar de seus sentidos e de seus sonhos, e na outra, dizia coisas sobre estar doente dos olhos, sobre tudo não ter significação. Um dia, saindo do banho, olhou-se no espelho, encarou o próprio reflexo e disse “pensar não é compreender, não é?”.
Foi-se, assim, passando o tempo. A cada semana ele adquiria novos hábitos, novas manias. Chegava em casa, espalhava as folhas pelo chão da sala e, de repente, uma nova personalidade. Com o tempo isso foi ficando comum. Antes eu me assustava, estranhava; antes ele se preocupava, tinha medo, trancava-se no quarto. Agora, chegava com as mangas ensanguentadas e, do jeito que estava, lia os novos poemas ou abria uma garrafa de vinho ou fumava um cigarro à janela.
Depois de alguns anos, ele não sentia mais prazer algum. Sentia-se preso e não aguentava mais manter dentro de sua casa todo o universo de pessoas com quem convivia. O distúrbio foi ganhando tão grande proporção que, depois de transcrever todos os poemas que tinha em casa, ele resolveu publicá-los. Ele não podia usar nomes reais, então pensou em heterônimos. Um seria Ricardo, outro Alberto; foi escolhendo os nomes ao passo que relia as pilhas correspondentes a cada tipo sanguíneo. Assim ele poderia compartilhar com o mundo todo.
A intimidade que ele ganhara com cada um era assustadora. De tanto ler e reler e declamar as ideias dos mortos, capturou a essência de cada um e começou a criar outras realidades. Nas cartas que escrevia, assinava pelos fantasmas, mandava notícias, novidades, e quando ele as recebia, exclamava com um tom de surpresa: Ora essa!, Ricardo foi embora para o Brasil!
Seus heterônimos foram seus únicos amigos. Era tudo o que ele queria que fossem até querer deles apenas a poesia. A forma, a ideologia, o jeito como cada um trançava a linguagem de um jeito que ele não conseguiria, isso passou a ser seu combustível. Agora não era mais surpresa. Toda vez que ele voltava de casa com os novos poemas, era certo: fechava em seu baú uma vida para que uma identidade nova nascesse em sua escrivaninha. E quando perguntavam a ele de onde saíra tanta gente, ele dizia “Eu sou todos eles”, e, de fato, ele era. Em certo ponto, se tornara.
Essa foi a vida que eu vi por décadas. Fernando foi um poeta brilhante para uns, algoz para outros, mas um gênio para quem olhasse de longe ou de perto. Sozinha, fui a única testemunha. Não há jovem escritor que tenha entrado por aquela porta e tenha saído andando, não há registro algum. Mas vocês bem dizem que as paredes têm ouvidos. Só falta alguém que nos entenda.
— Prazeres †